Personagens

A mulher que sobreviveu à própria lenda — e descobriu que a lenda ainda lota estádios

Para entender Xuxa é preciso olhar além do programa infantil: televisão, música, consumo, estética e infância se encontraram numa mesma personagem.

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Xuxa foi apresentadora, produto, indústria, fantasia infantil e memória coletiva. Quarenta anos depois do início do Xou da Xuxa, uma turnê de despedida esgota grandes arenas, vende mais de 100 mil ingressos e leva sua nave ao Maracanã. Talvez sua história mais interessante não seja como virou lenda — mas por que o Brasil ainda precisa encontrá-la.

Há pessoas famosas e há pessoas que acabam confundidas com uma época.

Xuxa pertence ao segundo grupo.

Para milhões de brasileiros que cresceram entre os anos 1980 e 1990, ela não foi apenas alguém que aparecia na televisão. Era uma espécie de infraestrutura emocional da infância. Estava na sala pela manhã, no toca-discos, na lancheira, na boneca, na roupa, no cinema, nas festas, nos penteados, no vocabulário e na imaginação.

É difícil explicar esse tamanho para quem nasceu depois.

Hoje, uma celebridade pode ter dezenas de milhões de seguidores e ainda assim ocupar apenas uma parte fragmentada da cultura. Na televisão aberta do Brasil daquela época, concentração significava outra coisa. Um programa podia reunir simultaneamente crianças de classes, regiões e sotaques diferentes diante da mesma imagem.

Xuxa não conquistou simplesmente uma audiência.

Ela ajudou a criar uma linguagem compartilhada.

Por muito tempo, pareceu lógico imaginar que esse tipo de fenômeno só poderia existir como memória. O público cresceria. A televisão se fragmentaria. A nave ficaria guardada num museu mental brasileiro.

Então veio 2026.

E o público comprou ingresso.

Não para assistir a uma exposição.

Não para rever um documentário.

Para vê-la de novo.

Quarenta anos depois, a nave voltou — e o estádio lotou

Em 25 de julho de 2026, Xuxa iniciou em São Paulo a turnê O Último Voo da Nave.

O nome já carregava uma promessa emocional clara: despedida.

Mas o tamanho da resposta do público mudou a natureza da história.

A estreia no Nubank Parque aconteceu com ingressos esgotados. Uma segunda apresentação em São Paulo também esgotou. Depois vieram novas datas. Em agosto, a turnê já havia ultrapassado a marca de 100 mil ingressos vendidos e uma quarta apresentação na capital paulista foi anunciada para fevereiro de 2027 depois de sucessivos sold outs.

No Rio de Janeiro, o show marcado para 20 de dezembro no Maracanã também esgotou.

A imagem é quase absurda de tão perfeita para a história.

Quarenta anos depois da estreia do Xou da Xuxa, adultos que um dia assistiram à nave descer pela televisão compram ingressos para vê-la sobrevoar um estádio.

Eles já não são “baixinhos”.

Têm filhos.

Alguns têm netos.

Têm cabelos brancos, responsabilidades, separações, boletos, doenças, carreiras e histórias acumuladas.

Mas quando as luzes se apagam, uma nave de centenas de quilos passa sobre a plateia e milhares de pessoas cantam músicas que aprenderam antes mesmo de compreender completamente o significado das letras.

Isso não é apenas nostalgia.

Nostalgia pode encher uma playlist.

Para encher um estádio, é preciso algo a mais.

Antes da economia dos influenciadores, já existia Xuxa

Em 1986, quando Xuxa chegou à Globo para comandar o Xou da Xuxa, não existiam Instagram, YouTube, TikTok ou a expressão “marca pessoal”.

Mesmo assim, o que se formou ao redor dela antecipava quase tudo isso.

O programa rapidamente se tornou campeão de audiência. Naquele mesmo ano, já era a atração que mais recebia cartas na emissora. O volume se tornaria tão extraordinário que a administração da correspondência exigia espaço físico, funcionários e logística própria.

Não eram métricas digitais.

Eram sacos, caixas, papel, galpão.

O engajamento ocupava metros quadrados.

Ao mesmo tempo, a imagem de Xuxa saía da televisão e passava a existir em praticamente tudo.

Bonecas. Roupas. Acessórios. Material escolar. Cosméticos. Filmes. Discos. Shows.

A Memória Globo registra que sua produtora chegou a administrar uma linha com mais de 200 produtos associados ao seu nome.

Antes que alguém inventasse a expressão creator economy, uma mulher brasileira já havia se transformado numa plataforma de mídia, entretenimento, consumo e identificação.

Xuxa não foi apenas uma apresentadora infantil extraordinariamente popular.

Ela foi uma das primeiras grandes indústrias de personalidade do Brasil.

Quando uma pessoa vira sistema

O primeiro LP ligado ao Xou da Xuxa vendeu mais de dois milhões de cópias ainda em 1986 e acumulou oito discos de platina até o Natal daquele ano.

Crianças copiavam as botas, as chuquinhas, as roupas, os gestos.

A nave que descia no palco não apresentava apenas uma mulher.

Apresentava um universo.

E universos precisam de regras.

Havia Paquitas, personagens, coreografias, brincadeiras, linguagem própria, estética própria, músicas próprias. O programa não ocupava apenas um horário na televisão. Ele organizava uma espécie de país paralelo infantil.

Isso explica por que a lembrança permanece tão poderosa.

Nostalgia não é simplesmente saudade do passado.

É saudade de um sistema de referências que já não existe.

Quando alguém hoje ouve as primeiras notas de uma música daquela época, muitas vezes escuta junto uma casa, uma sala, a mãe preparando alguma coisa, irmãos sentados no chão e uma televisão que parecia reunir o país.

Pouquíssimos artistas brasileiros tiveram acesso a esse território íntimo em escala nacional.

Esse foi o poder de Xuxa.

Também foi a armadilha.

A Rainha dos Baixinhos precisava permanecer rainha

Toda personagem pública nasce de uma seleção.

Algumas características são ampliadas.

Outras desaparecem.

No caso de Xuxa, a fabricação foi particularmente intensa porque o produto precisava parecer espontâneo.

A mulher deveria ser simultaneamente inacessível e íntima.

Linda, mas amiga.

Adulta, mas capaz de falar como criança.

Sexy para o mercado de celebridades e maternal para milhões de famílias.

Comercial, mas apresentada como afeto.

Era uma equação quase impossível.

Durante muito tempo, ela funcionou.

Só que existe um custo quando uma pessoa precisa corresponder diariamente à versão idealizada de si mesma.

No documentário lançado pelo Globoplay em 2023, aos 60 anos, Xuxa descreveu o momento em que começou a reivindicar mais poder sobre a própria vida. Relacionou essa mudança ao nascimento de Sasha e à necessidade de deixar de aceitar decisões impostas por pessoas ao redor.

A palavra que utilizou para descrever parte daquele passado foi dura:

marionete.

A inversão é reveladora.

Uma das mulheres mais poderosas da cultura popular brasileira relata que, no auge desse poder, não se sentia necessariamente dona de si.

Marlene Mattos e a pergunta que a nostalgia não resolve

Nenhuma tentativa séria de compreender Xuxa pode fugir de Marlene Mattos.

As duas trabalharam juntas por cerca de 19 anos.

A parceria foi central para a construção do fenômeno. Também terminou cercada por ressentimento, acusações de controle, abuso de confiança e poder e uma ruptura que durou quase duas décadas.

No documentário de 2023, elas se encontraram novamente depois de 19 anos sem contato.

A cena é desconfortável justamente porque não oferece a catarse simples que a televisão costuma desejar.

Xuxa confronta.

Marlene não aceita necessariamente a mesma interpretação do passado.

Quando a ex-diretora afirma que faria tudo novamente, Xuxa diria depois ter ficado chocada.

É tentador organizar essa história como uma fábula com papéis perfeitamente definidos.

Mas uma máquina daquele tamanho nunca pertence a uma única pessoa.

Havia emissora, direção, patrocinadores, gravadora, publicidade, empresários, audiência e uma cultura profissional que aceitava práticas que hoje seriam vistas de outra maneira.

Marlene foi uma figura decisiva.

Compreender o sistema exige perguntar também por que aquele sistema recompensava controle extremo, padronização de corpos, jornadas exaustivas e silêncio.

As Paquitas e a parte da memória que não pode ser maquiada

A nostalgia do Xou da Xuxa é real.

Os problemas também são.

O documentário Pra Sempre Paquitas, lançado em 2024, recuperou depoimentos de mulheres que trabalharam como assistentes de palco ainda adolescentes e trouxe relatos de pressão estética, cobrança por magreza, insegurança e controle nos bastidores.

Também voltou uma questão que acompanha a memória do programa: o padrão racial e estético das Paquitas.

Durante anos, praticamente todas correspondiam ao mesmo ideal — jovens, magras e majoritariamente loiras.

Xuxa tem revisitado publicamente esse assunto.

Reconheceu que aquilo hoje é observado de outra maneira e descreveu a estética como parte de um padrão de beleza mais amplo daquele período. Também relatou que Marlene Mattos resistia à presença de Paquitas negras.

É uma explicação relevante.

Não encerra a discussão.

O fato de um padrão ser cultural não significa que ninguém dentro dele tenha responsabilidade.

Mas também seria historicamente preguiçoso transformar uma única apresentadora na autora exclusiva de uma estética reproduzida por publicidade, novelas, brinquedos, revistas e praticamente toda a indústria cultural do período.

A parte mais interessante talvez seja outra.

Xuxa poderia simplesmente evitar esse assunto.

Não evita.

Ao olhar para trás, aceita colocar a própria memória sob julgamento.

Isso é mais raro do que parece.

O império que também ensinava a consumir

Existe outra contradição.

A intimidade construída com as crianças possuía enorme valor comercial.

Xuxa podia recomendar um objeto e milhões de crianças desejavam aquilo.

Sua imagem esteve associada a uma quantidade extraordinária de produtos. Décadas depois, organizações dedicadas aos direitos das crianças questionariam campanhas em que a apresentadora aparecia incentivando consumo infantil.

Seria injusto aplicar automaticamente a sensibilidade regulatória de hoje à televisão de quatro décadas atrás.

Seria igualmente injusto fingir que a dimensão comercial não existia.

Existia.

E era enorme.

Esse é precisamente o ponto.

O fenômeno Xuxa era afeto e negócio.

Fantasia e indústria.

Espontaneidade e planejamento.

Talvez a razão de continuar fascinante seja a impossibilidade de separar completamente essas coisas.

O Brasil exportou uma fantasia

A escala internacional também costuma ser subestimada.

Em 1991, El Show de Xuxa passou a ser transmitido para 17 países da América Latina.

A versão em espanhol tornou-se líder de audiência em seu horário. Milhões de crianças fora do Brasil passaram a reconhecer uma mulher brasileira pelo primeiro nome.

Houve Espanha.

Houve distribuição para o público hispânico nos Estados Unidos.

E, em 1993, veio a tentativa mais arriscada: um programa em inglês produzido para o mercado norte-americano.

Xuxa assinou contrato para gravar 65 episódios.

A experiência não funcionou como esperado.

Ela própria a descreveu anos depois como terrível e catastrófica, citando dificuldades com o inglês, problemas de saúde e um ambiente no qual aquilo que funcionava naturalmente na América Latina não se transportava da mesma maneira.

O fracasso americano é uma parte importante da história justamente porque impede que a narrativa vire mitologia empresarial.

Nem tudo que Xuxa tocou virou ouro.

Mas pouquíssimas estrelas brasileiras chegaram sequer à posição de fracassar tentando disputar a televisão americana em escala nacional.

A maternidade introduziu uma palavra nova: não

A história de Sasha aparece no relato de Xuxa como divisor.

Durante anos, milhões de crianças chamavam Xuxa de rainha.

Foi a chegada de uma criança específica que parece ter contribuído para desmontar parte daquela monarquia.

A maternidade mudou sua relação com a própria imagem e, segundo seu relato, fortaleceu o desejo de tomar decisões que antes aceitava sem confrontar.

A partir daí começa outra Xuxa.

Menos personagem.

Mais opinião.

Mais disposição para desagradar.

Mais envolvimento explícito com proteção infantil, direitos dos animais, diversidade e outras causas.

Isso também produziu rejeição.

O Brasil frequentemente diz desejar celebridades autênticas até o momento em que elas revelam opiniões que parte da audiência não compartilha.

Xuxa deixou de ser uma superfície tão fácil para projeção.

Talvez isso tenha sido uma libertação.

Aos 60, ela fez algo que a indústria normalmente não permite às mulheres

A cultura de celebridades possui uma relação particularmente cruel com o envelhecimento feminino.

Homens podem envelhecer e ganhar a palavra “experiente”.

Mulheres frequentemente envelhecem e recebem perguntas sobre procedimentos.

Xuxa construiu parte de sua fama em torno de uma imagem física considerada quase irreal.

Loira.

Alta.

Magra.

Olhos claros.

A boneca viva.

Décadas depois, passou a aparecer nas redes sociais com marcas do tempo e sem tentar permanentemente reproduzir o corpo da jovem que vendia milhões de discos.

Isso possui peso simbólico porque não se trata de qualquer mulher envelhecendo diante do público.

É uma mulher cuja juventude foi transformada em produto industrial.

Quando o tempo aparece nela, há algo quase político naquele gesto.

A boneca envelheceu.

A pessoa permaneceu.

Então o público voltou — não para a jovem, mas para a mulher que ficou

É aqui que a turnê de 2026 se torna mais interessante do que uma simples operação nostálgica.

Seria fácil imaginar uma celebração de uma noite.

Não foi isso que aconteceu.

A primeira apresentação em São Paulo esgotou.

A segunda também.

Novas datas foram abertas.

Mais de 100 mil ingressos foram vendidos.

O Maracanã esgotou meses antes da apresentação de dezembro.

O projeto ganhou novas datas para 2027.

Há mercado.

Mas o que exatamente esse público está comprando?

Não é a promessa de que Xuxa ainda tenha 25 anos.

Não tem.

Não é a ilusão de que o Xou da Xuxa ainda exista.

Não existe.

Não é sequer apenas a música.

As canções estão disponíveis gratuitamente há décadas.

O ingresso compra presença.

Compra a possibilidade de reconstruir coletivamente uma memória que até então existia de maneira privada.

Uma pessoa pode ouvir Lua de Cristal sozinha no carro.

Cinquenta mil pessoas cantando juntas transformam a mesma música em outra coisa.

É ritual.

Talvez o fenômeno atual seja sobre os fãs, não apenas sobre Xuxa

A geração que cresceu com Xuxa atravessou uma transformação histórica específica.

Foi criança antes da internet.

Adolescente antes das redes sociais.

Adulto durante a digitalização completa da vida.

É uma geração que viu desaparecer não apenas um programa, mas a própria experiência de uma cultura realmente massiva.

Hoje cada pessoa possui sua playlist, seu algoritmo, seu influenciador, sua bolha e sua cronologia.

Naquela época, milhões de crianças conheciam a mesma música na mesma semana.

Quando esse público vai ao estádio, talvez não esteja apenas procurando Xuxa.

Está procurando um tempo em que todos conheciam a mesma Xuxa.

Isso ajuda a explicar por que o fenômeno é tão poderoso.

Não é apenas saudade da artista.

É saudade de uma experiência coletiva.

O Maracanã importa porque muda a escala da despedida

Existe um simbolismo especial no Maracanã.

O estádio faz parte da imaginação nacional como palco de acontecimentos maiores do que a vida cotidiana.

Futebol.

Shows históricos.

Grandes multidões.

Quando uma artista associada à televisão infantil chega ali quatro décadas depois de sua explosão popular e esgota a apresentação, algo precisa ser reconhecido.

O fenômeno atravessou categorias.

Não estamos mais falando apenas de uma ex-apresentadora infantil fazendo show para fãs fiéis.

Estamos falando de patrimônio pop.

E há outra camada: a própria Xuxa afirmou que a Globo exibirá o show do Maracanã.

Se isso ocorrer como anunciado, a imagem fecha um círculo quase perfeito.

A emissora que ajudou a construir a personagem transmite, décadas depois, a despedida da nave diante de um estádio lotado.

Televisão.

Memória.

Mercado.

Afeto.

Tudo volta ao mesmo lugar.

Mas despedida de quê?

O nome da turnê diz O Último Voo da Nave.

Não “O Último Show de Xuxa”.

A distinção importa.

Talvez ela não esteja se despedindo do público.

Talvez esteja se despedindo de um objeto simbólico.

A nave foi durante décadas uma máquina de chegada.

Descia e anunciava Xuxa.

Agora sobrevoa o público como uma peça de memória materializada.

É quase como se a mulher pudesse finalmente olhar para o símbolo de fora.

Talvez seja isso que uma despedida saudável faça.

Não destrói o passado.

Coloca o passado no lugar certo.

O documentário não pediu absolvição — e a turnê não precisa fingir juventude

Talvez a parte mais sofisticada da revisão que Xuxa fez da própria história seja a recusa, ao menos declarada, de transformar o documentário numa canonização.

Ela disse que não queria uma produção feita para colocá-la “nas alturas”.

Contou ter revisto comportamentos e sentido vergonha de algumas coisas.

Isso importa.

Memórias públicas costumam ser organizadas como defesa.

O documentário de uma estrela frequentemente existe para confirmar aquilo que a estrela gostaria que o público acreditasse.

No caso de Xuxa, mesmo sendo uma obra autorizada e inevitavelmente construída a partir de sua perspectiva, há momentos de desconforto, trauma, fracasso e contradição.

A turnê atual adiciona outra camada.

Ela celebra aquilo que deu certo sem precisar apagar aquilo que hoje é discutido de maneira diferente.

O público pode cantar.

E depois conversar sobre o passado.

Uma coisa não precisa cancelar a outra.

Xuxa não precisa ser inocentada para ser compreendida

Existe uma tendência estranha quando revisitamos figuras da cultura popular.

Ou transformamos em santos.

Ou julgamos como réus.

Xuxa não precisa de nenhum dos dois tratamentos.

Sua importância cultural não depende de acreditarmos que todas as escolhas feitas em seu nome foram corretas.

Também não desaparece porque aspectos daquele universo envelheceram mal.

É possível reconhecer simultaneamente:

que ela ajudou a reproduzir padrões de beleza estreitos;

que estava inserida numa estrutura que os reproduzia muito antes dela;

que sua imagem foi utilizada numa enorme máquina de consumo infantil;

que essa máquina ajudou a construir uma experiência cultural extraordinariamente potente;

que pessoas nos bastidores relatam sofrimento;

que ela própria relata ter sofrido controle e abuso de poder;

que foi beneficiária do sistema;

e que também precisou lutar para recuperar autonomia dentro dele.

Adultos suportam contradições.

Talvez seja justamente isso que uma leitura adulta de Xuxa exija.

A mulher que sobreviveu à própria lenda

Por muito tempo, a pergunta era:

quem existe por trás da Rainha dos Baixinhos?

Talvez ela já tenha envelhecido.

A mulher não está mais escondida atrás da personagem.

Está à nossa frente há anos.

Com opiniões.

Com rugas.

Com erros.

Com causas.

Com uma filha adulta.

Com memórias que escolhe rever.

Com acontecimentos que prefere esquecer.

Com a liberdade de discordar da própria história.

A pergunta mais interessante agora é outra:

o que acontece com uma pessoa depois que ela sobrevive à própria lenda?

No caso de Xuxa, aconteceu algo raro.

A lenda não desapareceu.

Também não venceu a mulher.

As duas aprenderam a coexistir.

A mulher pode olhar para a nave.

O público pode desejar vê-la mais uma vez.

E ninguém precisa fingir que o tempo não passou.

E então quarenta anos depois, o público fez uma escolha

A história poderia ter terminado de uma forma previsível.

Reprises.

Documentários.

Datas comemorativas.

Entrevistas de nostalgia.

Uma carreira transformada em arquivo.

Mas em 2026 o público respondeu de outra maneira.

Comprou ingresso.

Esgotou São Paulo.

Abriu novas datas.

Levou o projeto além de 100 mil entradas vendidas.

Esgotou o Maracanã.

Isso não apaga as contradições.

Não resolve as discussões sobre a televisão daquele período.

Não santifica ninguém.

Só prova uma coisa muito específica:

a ligação ainda existe.

Talvez Xuxa não tenha simplesmente sobrevivido à própria lenda.

Talvez tenha conseguido algo ainda mais raro.

Envelhecer ao lado dela.

E talvez seja por isso que milhares de adultos estejam dispostos a entrar num estádio, olhar para cima e esperar novamente pela nave.

Não porque ainda sejam crianças.

Mas porque sabem que não são.

E, por algumas horas, querem encontrar a pessoa que um dia lhes ensinou como aquela infância parecia.