Personagens

Xuxa não foi apenas uma apresentadora infantil. Foi um fenômeno social brasileiro

Para entender Xuxa é preciso olhar além do programa infantil: televisão, música, consumo, estética e infância se encontraram numa mesma personagem.

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Em 1986, quando Xuxa chegou à Globo para comandar o *Xou da Xuxa*, a televisão aberta brasileira ainda tinha capacidade de organizar a manhã de um país inteiro. O programa misturava brincadeiras, música, circo e desenhos e reunia cerca de 200 crianças nas gravações. Rapidamente se tornou campeão de audiência.

Mas reduzir Xuxa a uma apresentadora de sucesso é perder a dimensão do fenômeno.

A memória da Globo registra que seu primeiro LP na emissora já havia ultrapassado dois milhões de cópias no Natal de 1986. O *Xou da Xuxa 3* superou a marca de três milhões. Produtos licenciados — bonecas, roupas, acessórios — espalharam a estética da apresentadora para fora da televisão. Crianças imitavam penteados, botas, roupas e gestos. O programa chegou a outros países da América Latina e, mais tarde, aos Estados Unidos.

Uma marca antes de falarmos em “marca pessoal”

Hoje é normal que um influenciador tenha linha de cosméticos, roupas, podcast, turnê e presença em várias plataformas. Xuxa fez algo semelhante antes da internet: televisão era o centro de um sistema que incluía discos, filmes, shows e produtos.

A diferença é de escala e de concentração. Havia menos canais, menos competição por atenção e muito mais audiência simultânea. Quando Xuxa lançava uma música, o país não precisava “descobri-la” por algoritmo. A música chegava junto com a personagem que já estava diariamente dentro de casa.

Infância, consumo e contradição

O fenômeno também revela tensões de seu tempo. A estética dos programas infantis dos anos 1980 e 1990 misturava linguagem para crianças com códigos visuais produzidos por adultos. Visto décadas depois, parte desse repertório provoca perguntas legítimas sobre sexualização, publicidade e a fronteira entre entretenimento infantil e consumo.

Reexaminar isso não exige apagar a memória afetiva. Pelo contrário. Uma cultura madura pode reconhecer simultaneamente que milhões de pessoas foram genuinamente felizes com aquele universo e que os padrões de mídia infantil mudaram.

Um acontecimento coletivo

Xuxa virou um tipo de memória geracional. Quem foi criança naquele período pode não ter comprado um disco, não ter ido a um show e nem ter possuído uma boneca, mas provavelmente reconhece a nave, as Paquitas, os bordões e as músicas.

É isso que diferencia uma celebridade de um fenômeno social: a presença ultrapassa o consumo voluntário. Torna-se parte do ambiente.

Por isso, a pergunta mais interessante sobre Xuxa não é se ela ainda é a “Rainha dos Baixinhos”. É o que o tamanho daquela rainha revela sobre o Brasil que a produziu — um país mais jovem, mais concentrado diante da televisão e capaz de transformar uma apresentadora infantil numa das maiores indústrias culturais de sua época.

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Fontes consultadas - [Memória Globo — perfil de Xuxa Meneghel](https://memoriaglobo.globo.com/perfil/xuxa-meneghel/noticia/xuxa-meneghel.ghtml) - [Memória Globo — curiosidades do Xou da Xuxa](https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/infantojuvenil/xou-da-xuxa/noticia/curiosidades.ghtml)