Rever um programa de auditório dos anos 1980 ou 1990 produz uma sensação estranha. Tudo parece maior: escadas, luzes, orquestras, figurinos, plateias. Até o silêncio parece mais solene. A conclusão fácil é que a televisão brasileira perdeu glamour.
Talvez. Mas não sozinha.
A TV aberta operava num mercado de atenção concentrada. Poucos canais disputavam uma audiência enorme, e grandes programas justificavam grandes cenários porque eram vitrines centrais para artistas, anunciantes e lançamentos. Hoje, o mesmo orçamento de comunicação precisa conversar com streaming, YouTube, redes sociais, podcasts e vídeo curto.
O Reuters Institute documenta essa fragmentação no consumo de informação; na cultura, o princípio é semelhante. A atenção não desapareceu. Ela se espalhou.
Quando víamos menos, imaginávamos mais
O glamour também dependia de distância. Sabíamos pouco sobre o camarim, a produção, o cachê, a casa, a rotina e a opinião política de uma estrela. A celebridade aparecia em momentos controlados. Isso permitia que a imagem fosse maior do que a pessoa.
As redes sociais acabaram com boa parte desse mistério. Hoje vemos a estrela no estúdio e, minutos depois, no carro, na cozinha, discutindo no comentário de uma publicação. A intimidade aumentou; a aura diminuiu.
A TV tenta recuperar memória
O próprio SBT explicitou essa percepção ao anunciar, em 2025, uma grade que falava em “resgatar a essência” da emissora, reativando formatos e códigos associados à memória afetiva de seu público. Não é coincidência. Em um mercado fragmentado, nostalgia virou ativo estratégico.
Mas nostalgia não devolve a estrutura econômica que produziu a antiga televisão. O futuro provavelmente será híbrido: grandes eventos ao vivo e programas de forte identidade convivendo com conteúdo pensado para circular em cortes e plataformas.
A televisão pode ter perdido parte do glamour. Nós também perdemos a inocência necessária para enxergá-lo.
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