“Ai, que loucura” parece espontâneo demais para ser estratégia. Talvez tenha começado assim. Mas depois de décadas de exposição, Narcisa Tamborindeguy aprendeu algo que muita celebridade leva anos para entender: **quando o público insiste em transformar você em personagem, uma saída é assumir o controle da personagem**.
Narcisa é advogada e jornalista, qualificações registradas desde a estreia de *Mulheres Ricas*, na Band, em 2012. O reality preferia outra moldura: luxo, champanhe, Copacabana, excesso. Ela rapidamente se tornou o personagem mais reconhecível do programa — tanto que permaneceu na segunda temporada.
Em 2025, numa entrevista ao *Domingo Espetacular*, Narcisa disse explicitamente que considera “socialite” uma definição rasa para sua vida e falou sobre trabalho, ação social e a transformação de seus bordões em memes.
A caricatura como propriedade intelectual
Existe uma inteligência particular em saber repetir a própria caricatura sem ser completamente engolida por ela. Narcisa oferece ao público exatamente os elementos esperados — a voz, o gesto, o absurdo, o “don't touch, is art” — e, com isso, mantém reconhecimento instantâneo.
Na linguagem das redes sociais, isso é uma vantagem enorme. Um meme precisa ser reconhecido em segundos. Narcisa já possuía essa gramática antes de TikTok e Reels.
Alta sociedade virou entretenimento
*Mulheres Ricas* também marcou uma transição. A velha coluna social dependia de sobrenomes, clubes, casamentos e páginas impressas. O reality transformou riqueza em performance televisiva. O dinheiro já não precisava ser discreto; precisava render cena.
Narcisa atravessou os dois mundos. Vem de um universo social anterior às redes e, ao mesmo tempo, se adaptou perfeitamente à cultura do recorte viral.
Talvez por isso sobreviva melhor do que a própria categoria “socialite”. Ela deixou de depender da validação da alta sociedade para existir como figura pública. Tornou-se uma linguagem.
Por trás do exagero há, portanto, algo bastante pragmático: uma mulher que compreendeu que ser subestimada também pode ser uma forma de liberdade. Enquanto o público ri da personagem, ela continua proprietária do palco.
---