Sociedade

Por que o Brasil ama destruir as mulheres que primeiro transformou em ídolos?

A mesma máquina que fabrica símbolos femininos frequentemente exige que eles permaneçam jovens, dóceis e coerentes para sempre.

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O roteiro se repete com frequência suficiente para parecer uma estrutura. Uma mulher é transformada em símbolo nacional. Sua aparência, personalidade ou talento passam a representar uma época. Depois, quando envelhece, muda de opinião, enfrenta problemas ou simplesmente deixa de corresponder ao personagem original, começa a operação inversa: desmontar o ídolo.

Não é exclusividade brasileira, nem acontece apenas com mulheres. Mas mulheres públicas enfrentam camadas específicas de vigilância — aparência, sexualidade, maternidade, idade, voz, roupa, temperamento — que tornam a permanência mais cara.

A ONU Mulheres tem documentado uma escalada global de violência digital contra mulheres no espaço público, com ataques, desinformação e ameaças que buscam silenciar ou expulsar vozes femininas. Nem toda crítica a uma celebridade é violência, claro. Mas o ambiente ajuda a entender por que a exposição pública feminina se torna tão facilmente pessoal e punitiva.

A idolatria contém uma armadilha

Quando transformamos alguém em “rainha”, “musa”, “queridinha” ou “namoradinha”, parece elogio. Também é um contrato. O título vem acompanhado de expectativas: a rainha deve permanecer majestosa; a musa, bela; a queridinha, agradável.

O problema aparece quando a pessoa real contradiz a função simbólica.

Xuxa envelhece e revê aspectos de sua própria história. Vera Fischer deixa de ser apenas o corpo que venceu um concurso de beleza. Mara Maravilha assume posições que parte do antigo público rejeita. Luana Piovani faz da franqueza uma parte central da própria presença pública.

A decepção, muitas vezes, nasce menos do que essas mulheres fizeram do que da quebra de um acordo que só existia na cabeça do público.

Ídolos são pessoas antes de serem patrimônios afetivos

Uma cultura madura não precisa proteger celebridades de crítica. Precisa aprender a criticá-las sem retirar delas o direito de continuar existindo.

Entender isso muda a pergunta. Em vez de “o que aconteceu com aquela mulher que admirávamos?”, talvez devêssemos perguntar: **por que esperávamos que ela permanecesse exatamente como a lembrança que construímos?**

O problema do ídolo é que ele pertence ao público. O problema da pessoa é que ela continua pertencendo a si mesma.

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Fontes consultadas - [UN Women — Tipping Point: online violence against women in public life (2025)](https://www.unwomen.org/en/digital-library/publications/2025/12/tipping-point-the-chilling-escalation-of-violence-against-women-in-the-public-sphere-in-the-age-of-ai) - [Memória Globo — perfil de Xuxa Meneghel](https://memoriaglobo.globo.com/perfil/xuxa-meneghel/noticia/xuxa-meneghel.ghtml) - [Memória Globo — perfil de Vera Fischer](https://memoriaglobo.globo.com/perfil/vera-fischer/noticia/vera-fischer.ghtml) - [SBT — “Show Maravilha completa 30 anos de sua estreia”](https://tv.sbt.com.br/programas/variedades/sbt-na-web/noticia/88661-show-maravilha-completa-30-anos-de-sua-estreia)