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O Brasil está cansado da política — e isso pode ser mais perigoso do que a polarização

A campanha presidencial começou sob um paradoxo: a disputa continua apertada e emocionalmente carregada, mas parte do país parece menos disposta a participar dela. Quando o eleitor se afasta não por consenso, mas por exaustão, quem ganha?

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O Brasil está cansado da política — e isso pode ser mais perigoso do que a polarização

Há uma estranheza na eleição brasileira de 2026.

O país continua dividido. A disputa presidencial permanece competitiva. Lula e Flávio Bolsonaro concentram a maior parte das intenções de voto, enquanto Augusto Cury emergiu como uma candidatura de terceiro caminho com crescimento relevante. A política continua dominando manchetes, tribunais, redes sociais e conversas privadas.

E, ainda assim, há sinais de cansaço.

A campanha começou mais cautelosa do que seria de esperar numa eleição tão apertada. Estratégias de comunicação estão sendo filtradas com cuidado. Candidatos e assessores falam abertamente sobre o risco de desinformação, inteligência artificial, gafes transformadas em crises e uma audiência que parece menos disposta a consumir política da forma febril que marcou ciclos anteriores.

Talvez este seja um dos fenômenos mais importantes desta eleição — e um dos menos discutidos.

O Brasil não parece ter superado a polarização. Parece, em parte, **exausto dela**.

E isso não é necessariamente uma boa notícia.

A diferença entre moderação e desistência

Existe uma leitura otimista para o cansaço político.

Depois de anos em que cada jantar de família parecia uma convenção partidária, cada celebridade precisava declarar voto e cada desacordo era tratado como prova de caráter, talvez o eleitor brasileiro esteja simplesmente buscando normalidade.

Menos política poderia significar menos hostilidade.

Menos militância poderia significar mais espaço para reflexão.

Menos dependência de líderes carismáticos poderia abrir caminho para uma política mais institucional.

Seria reconfortante acreditar nisso.

O problema é que há outra possibilidade: o eleitor não está menos polarizado. Está apenas **menos disposto a gastar energia com a política**.

Essa diferença é fundamental.

A pessoa moderada continua participando, mas rejeita extremos. A pessoa exausta pode simplesmente parar de prestar atenção.

Uma democracia saudável precisa da primeira. Pode ser profundamente vulnerável à segunda.

A política como produto emocional

Durante boa parte da última década, a política brasileira foi organizada como uma indústria de atenção.

Medo. Raiva. Humilhação. Escândalo. Vitória. Derrota. Traição.

As redes sociais descobriram muito antes dos partidos que emoções fortes circulam melhor do que argumentos complexos. A política aprendeu a falar a língua dos algoritmos: simplificar, personalizar e dramatizar.

Isso tem uma consequência psicológica previsível.

Nenhuma sociedade consegue permanecer indefinidamente em estado de emergência.

Quando todo dia é histórico, nada mais parece histórico.

Quando toda denúncia é “a maior de todas”, o cidadão começa a suspeitar que amanhã haverá outra maior.

Quando toda eleição é apresentada como a última oportunidade de salvar o país, a palavra “salvar” perde força.

A fadiga não elimina o conflito. Ela diminui a capacidade de reagir a ele.

Uma eleição competitiva, mas menos elétrica

A fotografia eleitoral atual não sugere apatia total.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana mostra Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno. Augusto Cury aparece com 8%, após crescimento rápido, e os demais candidatos permanecem em patamares menores.

No segundo turno testado entre os dois líderes, a diferença é estreita.

Portanto, não estamos diante de uma eleição sem disputa.

Estamos diante de algo mais sutil: uma disputa intensa acontecendo numa sociedade que talvez esteja menos disponível para vivê-la como identidade permanente.

Reportagem da Reuters descreveu uma campanha de Lula excepcionalmente cautelosa e observou engajamento público mais contido, atribuído por interlocutores e analistas a uma combinação de polarização, fadiga e medo de erros amplificados pelas redes.

Do outro lado, a candidatura de Flávio Bolsonaro também precisa administrar um ambiente em que qualquer mensagem pode circular fora de contexto, ser manipulada por inteligência artificial ou transformar-se em munição adversária em poucos minutos.

A prudência pode ser racional.

Mas uma campanha excessivamente defensiva também produz menos debate substantivo.

E aí surge o paradoxo: quanto mais perigoso se torna falar, mais profissionalmente calculada fica a política. Quanto mais calculada fica a política, menos espontânea e informativa ela parece. Quanto menos informativa ela parece, mais o eleitor se desliga.

Quem ganha quando o eleitor se desliga?

A resposta intuitiva seria: ninguém.

Mas política raramente distribui custos de forma igual.

Baixo engajamento tende a favorecer quem já é conhecido.

Se o eleitor reduz o tempo dedicado à campanha, marcas políticas estabelecidas possuem vantagem. Lula não precisa explicar quem é Lula. O sobrenome Bolsonaro dispensa apresentação. Um candidato novo precisa conquistar atenção que o público talvez não queira oferecer.

Isso ajuda a entender por que o crescimento de Augusto Cury é tão interessante.

Ele entra na disputa com um ativo diferente: décadas de reconhecimento fora da política e uma linguagem que promete distância da guerra tradicional entre esquerda e direita.

Se continuar crescendo, sua candidatura poderá funcionar como teste para uma hipótese: **existe um eleitor procurando uma alternativa ideológica ou apenas um eleitor procurando descanso?**

São coisas diferentes.

Um novo centro político exige programa, coalizão, ideias e capacidade de governo.

Um voto de fadiga exige apenas alguém que pareça não pertencer à briga anterior.

O perigo da equivalência

Há um risco intelectual quando se fala em cansaço da polarização.

É transformar “estou cansado dos dois lados” em conclusão automática de que todos os atores, instituições, erros e responsabilidades são equivalentes.

Não são.

Uma democracia madura precisa conseguir sustentar duas ideias simultaneamente:

é legítimo estar cansado do ambiente político;

e ainda assim continua sendo necessário distinguir fatos, gravidades e responsabilidades.

A exaustão gosta de atalhos.

“Todos são iguais” é um deles.

Às vezes, a frase descreve decepção legítima. Outras vezes, funciona como permissão para não investigar diferença alguma.

O problema não é criticar todos. É parar de comparar.

A inteligência artificial torna a fadiga mais perigosa

Esta é a primeira eleição presidencial brasileira em que conteúdo sintético de alta qualidade faz parte estrutural do ambiente político.

O TSE acaba de definir critérios específicos para deepfakes. A Justiça Eleitoral tenta estabelecer limites para vídeos, áudios e imagens criados ou alterados por inteligência artificial capazes de representar pessoas reais de maneira verossímil.

A preocupação não é teórica.

Vídeos falsos de candidatos já circulam. Conteúdos fabricados prometem políticas que nunca foram anunciadas. Avatares de figuras políticas são utilizados em eventos partidários. E ferramentas de IA estão se tornando parte da forma como o cidadão pesquisa candidatos.

Quanto mais difícil fica decidir o que é verdadeiro, maior é o esforço necessário para acompanhar a política.

E quanto maior o esforço, maior a tentação de desistir.

Esse talvez seja o efeito mais corrosivo da desinformação contemporânea: ela não precisa convencer todo mundo de uma mentira.

Basta convencer uma parcela suficiente da população de que **ninguém pode saber a verdade**.

Quando isso acontece, a mentira deixa de competir com a verdade.

Ela compete com a confiança.

O eleitor que desiste continua sendo governado

Existe algo profundamente humano em querer distância.

A política brasileira atravessou impeachment, Lava Jato, prisão de ex-presidente, retorno de ex-presidente, pandemia, ataques às instituições, investigações, julgamentos, eleições radicalizadas e uma avalanche diária de disputas digitais.

Cansa.

Mas existe uma assimetria desconfortável.

O cidadão pode desistir da política.

A política não desiste do cidadão.

Ela continua definindo imposto, aposentadoria, juros, escola, saúde, segurança, urbanismo, meio ambiente, direitos civis, regras de trabalho e relações internacionais.

A recusa em participar não produz neutralidade.

Produz ausência.

E toda ausência política é ocupada por alguém.

Talvez o problema seja outro

A pergunta não deveria ser “como fazer o brasileiro gostar novamente de política?”.

Talvez isso seja pedir demais.

Democracia não precisa de paixão permanente.

Precisa de atenção suficiente.

Precisa de cidadãos capazes de diferenciar informação de propaganda, propostas de slogans, responsabilidade de associação, erro de crime, adversário de inimigo.

Talvez o desafio de 2026 seja justamente retirar a política do estado de entretenimento infinito sem transformá-la em assunto irrelevante.

Menos espetáculo.

Mais consequência.

Menos obrigação de opinar sobre tudo.

Mais disposição para entender aquilo que realmente importa.

O que ainda não sabemos

Não sabemos se a aparente fadiga continuará até outubro.

Campanhas mudam rapidamente. Um debate pode reorganizar a corrida. Uma crise econômica, um escândalo ou um evento externo pode devolver intensidade à disputa em questão de dias.

Também não sabemos se o crescimento de candidaturas alternativas representa desejo real de reorganização política ou apenas um protesto temporário contra as opções dominantes.

Mas uma coisa merece atenção.

Uma democracia não entra em risco apenas quando seus cidadãos se tornam fanáticos.

Ela também pode enfraquecer quando eles ficam **cansados demais para se importar**.

A polarização transforma política em guerra.

A exaustão pode transformá-la em ruído.

Entre uma coisa e outra existe uma tarefa menos emocionante, mas talvez mais importante:

continuar prestando atenção.